“Não consigo achar que sou uma mulher” Parte 2 – ou – “O que há de tão essencial num pênis?”

Há um tempo atrás escrevi este post aqui sobre ensinamentos muito antigos do budismo, que falam da dicotomia homem/mulher e da sua vacuidade.

Em certa ocasião, perguntei a um lama muito elevado se ele achava que as mulheres podiam realizar o estado de buda, e ele respondeu que elas poderiam ir até o último segundo, e então teriam que mudar para um corpo masculino. E eu indaguei: “O que há de tão essencial num pênis para se tornar iluminado? O que há de tão incrível no corpo masculino?” E então perguntei se havia alguma vantagem em se ter uma forma feminina. Ele disse que iria embora pensar sobre isso. No dia seguinte, ele voltou e disse: “Pensei no assunto e a resposta é não, não existe nenhuma vantagem de qualquer tipo”. Eu pensei: uma vantagem é que não temos um ego masculino.

Tenzin Palmo, livro “A Caverna na Neve” de Vicki Mackenzie

Hoje, dia 8 de março, dia de lembrar as lutas sociais, políticas e econômica das mulheres, quero contar um pouco para vocês sobre a Venerável Mestra Jetsunma Tenzin Palmo, britânica que, após passar mais de 12 anos em treinamento espiritual, tem trabalhado para que as monjas no budismo tibetano possam receber treinamento e títulos monásticos iguais aos dos monges.

Ao longo dos séculos, as monjas tiveram um tratamento injusto. Enquanto as contrapartes masculinas entretinham-se nas universidades monásticas, absortas em profunda erudição e brilhante debate dialético, as monjas tibetanas eram relegadas a pequenos conventos onde, sem saber ler ou escrever, ficavam reduzidas a fazer rituais simples, rezar para a comunidade local ou, pior ainda, trabalhar nas cozinhas dos mosteiros servindo os monges. Por isso não havia Dalai Lamas femininos, nem mestres de linhagem femininos.

Trecho do livro “A Caverna na Neve” de Vicki Mackenzie

O livro ainda descreve muitas outras formas em que as mulheres foram discriminadas ao longo da história do budismo.

Foi num momento de pura frustração, depois de ter sido rejeitada mais uma vez  em função de ser mulher. Fiz o seguinte voto sincero: vou continuar a assumir a forma feminina e atingir a iluminação! Eu estava tão exasperada com o machismo terrível ao meu redor. (…) Claro que ser homem ou mulher é relativo, mas neste momento estamos vivendo em um plano relativo, e o caso é que há uma imensa escassez de professores espirituais femininos. Então, ser mulher neste momento é mais útil.”

Tenzin Palmo, no livro “A Caverna na Neve”

Este foi o mesmo voto da divindade Tara, sobre a qual falei no post anterior. Ainda que a história de Tara, e a existência de divindades femininas no budismo tibetano seja muito inspirador, é ainda mais ver uma Mestra encarnada, entre nós, em nosso tempo. Emaho!

Uma das muitas críticas dirigidas às mulheres em busca da iluminação através dos séculos é que eram prejudicadas por não conseguirem se dar bem juntas. (…)

“É um disparate absoluto. As mulheres têm estado coesas há milênios”, foi a posição de Tenzin Palmo.” Tenho notado que quando as mulheres trabalham juntas em um projeto, há uma tremenda energia, uma energia muito especial. As mulheres gostam da ideia de retiros só de mulheres. (…)”

Trecho do livro “A Caverna na Neve” de Vicki Mackenzie

Sim, eu quero ir em um retiro só de mulheres, como a Marcia Baja conduz, para poder discutir esses assuntos tão delicados que nos tocam. 😀

Mas, o que muda quando temos uma mulher como a Tenzin Palmo, reconhecida com o título de “Venerável Mestra”?

Vicki conta que em março de 1993 houve uma reunião com sua Santidade o Dalai Lama, e muitos líderes religiosos budistas. Nesta reunião, se pronunciou assim Sylvia Wetzel:

Por favor, imaginem que vocês são um homem que chega a um centro budista. Você vê a pintura linda da Tara rodeada por dezesseis arhats femininos e vê também que Sua Santidade a XIV Dalai Lama, em todas as catorze encarnações, sempre optou por um renascimento feminino. Você está cercado de rinpoches femininas muito elevadas – mulheres bonitas, fortes e educadas. Então vê as bhikshunis entrando, autoconfiantes, expansivas. De repente, vê os monges chegando atrás delas – muito tímidos e envergonhados. Você ouve falar das lamas de linhagem da tradição, todas mulheres, até Tara feminina na pintura. Lembrem-se, vocês são um homem, que então se aproxima de uma lama, sentindo-se um pouquinho inseguro e um pouquinho irritado, e pergunta: “Por que existem todos estes símbolos femininos, budas femininos?”, e ela responde: “Não se preocupe. Homens e mulheres são iguais. Bem, quase. Temos algumas escrituras que dizem que um renascimento masculino é inferior, não é mesmo? (…)”

Sylvia Wetzel, no livro “A Caverna na Neve” de Vicki Mackenzie

Não só na reunião citada, mas nesta geração, tem havido muita discussão sobre o papel da mulher no budismo, e também sobre a vinda do budismo para o ocidente, e os desafios que isto trouxe para a tradição da prática. E assim, Jetsunma Tenzin Palmo tem trabalhado para ajudar as monjas na sua urgência de ter mosteiros onde possam realmente estudar e praticar o Dharma, possam receber as mesmas ordenações monásticas dos monges.

Desde 1993, quando ela e outras mulheres confrontaram o Dalai Lama na Conferência de Dharamsala com a discriminação sexual que haviam enfrentado, a situação das monjas começou a melhorar um pouco. Uma equipe de monjas talentosas começou a excursionar pelo mundo fazendo mandalas de areia da divindade Kalachakra em favor da paz mundial – uma tarefa tradicionalmente realizada por monges. Um novo convento, Dolma Ling, foi inaugurado em Dharamsala e lá as monjas aprendem a arte de debater. (…) A questão de se introduzir a ordenação completa está cada vez mais próxima. (…) Todavia, há um longo caminho a percorrer.

Trecho do livro “A Caverna na Neve” de Vicki Mackenzie

Mas e afinal, para nós, que não temos como Tenzin, uma grande missão, há vantagem em ser mulher?

Eu diria que a natureza de buda não é nem masculina, nem feminina; a perfeição da sabedoria, Prajnaparamita, é feminina; e, com as oportunidades de educação que temos hoje, não há nada nesta vida que não possa ser alcançado em um corpo feminino. E mais: as mulheres são naturalmente receptivas à meditação. Muitos grandes mestres de meditação me disseram, sem que eu perguntasse, que as mulheres são melhores na meditação. São intelectualmente muito bem sintonizadas e, agora que temos oportunidade, não há nada que não possamos fazer em um corpo feminino. Então, vá em frente.

Jetsunma Tenzin Palmo, livro “No Coração da Vida”.

Se você se interessa pelo caminho espiritual na sua vida, ou pelo caminho espiritual das mulheres, ou ainda pelas condições sociais das mulheres no budismo, recomendo muito a leitura dos dois livros citados.

E vamos em frente!

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